quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015


 

 

Os filhos do crack
VEJA acompanhou durante quase meio ano a luta de Ligia, usuária de droga e mãe de um bebê de 7 meses, contra o vício que já está em 1 milhão de lares brasileiros

 



De poetas a biólogos evolucionistas, não faltaram ao longo da história tentativas de explicar, quantificar e enaltecer o sentimento mais nobre e inquebrantável do ser humano. O amor de mãe desafia as forças destruidoras da guerra, da miséria e do preconceito. Prontifica a mulher ao autossacrifício e lhe dá coragem redobrada quando se trata de salvar os filhos. Se há objetivo no amor, o materno é todo voltado para a proteção da prole. O instinto impele a mãe a ficar do lado dos filhos - para tê-los em seus braços, para assegurar-lhes as condições para crescer felizes e em segurança. O que dizer do surgimento de uma força que se tem mostrado potente o bastante para superar até o amor de uma mãe pelo próprio filho? Essa força existe, só pode ser descrita como infernal e está se espalhando pelo Brasil com o nome de crack.
Essa droga barata, feita de pasta-­base de coca, bicarbonato de sódio e amônia, quando inalada, leva à produção no cérebro de quatro vezes mais dopamina (um hormônio que dá sensação de prazer) do que a cocaína. Quatro em cada dez dependentes de crack têm endereço fixo. Não são, ainda, parte daquela multidão de andarilhos que vemos nas ruas, pele e osso, maltrapilhos, com o olhar petrificado. O crack está destruindo famílias, jogando no lixo décadas de estudo de suas vítimas e produzindo uma geração dickensiana de órfãos de pais vivos, abandonados em "lares sociais" para ser criados pela caridade dos outros. Muitos são filhos da classe média que, não fosse pelo crack, estariam de mãos dadas com o pai ou a mãe indo para a escola ou aprendendo a andar de bicicleta nos parques nos fins de semana.
Oito em cada dez crianças abandonadas são filhas de dependentes químicos. Milhares de brasileiras engravidaram sob o efeito do crack, gestaram seus bebês drogadas e agora lutam contra o vício para não perder seus filhos. São mulheres como a ex-estudante de pedagogia Ligia Carvalho Fiochi, de 34 anos, de São Paulo, cuja história é contada nestas páginas. A reportagem de VEJA acompanhou Ligia durante pouco mais de cinco meses, começando três meses depois de ela dar à luz Lethicia. O embate entre o desejo de cuidar da filha e a vontade por diversas vezes incontrolável de usar a droga que a afasta do instinto materno é uma síntese do que enfrentam diariamente muitas outras mães brasileiras.

Por: Leonardo Coutinho, fotos de André Liohn

Fonte: matéria extraída da Revista Veja



 

 

 

 

 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Ex-baixista da Legião Urbana, Renato Rocha morou na rua e lutou contra vício

 

Conhecido como Negrete, o músico foi encontrado morto na manhã deste domingo (22), no Guarujá, litoral de São Paulo

O ex-baixista da Legião Urbana, Renato Rocha, 53, foi encontrado morto na manhã deste domingo (22) em um hotel próximo à praia da Enseada, no Guarujá, litoral de São Paulo. A causa da morte ainda não foi esclarecida, mas, segundo páginas mantidas por familiares do artista, a suspeita é de parada cardíaca.

 
Renato Rocha foi encontrado morto aos 53 anos
Divulgação
Renato Rocha foi encontrado morto aos 53 anos

De acordo com a mensagem no Facebook, o irmão do músico, Roberto da Silva Rocha, falou que ele foi encontrado sentado após uma mulher sentir a falta de Renato e ir procurá-lo no quarto. Ele estava sentado, encostado à porta.
Nascido em São Cristovão, no Rio de Janeiro, Renato Rocha, conhecido como Negrete ou Billy, mudou-se para Brasília aos nove anos, por causa da carreira de seu pai militar. Na capital federal, ele teve, durante os anos 1970, contato com bandas brasilienses como Tela, Escola de Escândalos e Blitz 64. Foi através de Geruza, ex-integrante dos dois últimos grupos, que ele conheceu Renato Russo.
O Negrete entrou para a Legião Urbana em 1984, quando o então trio precisava de um baixista para gravar o primeiro LP da banda, "Legião Urbana". Ele substituiu o próprio Renato Russo, uma vez que, pouco antes das gravações, o cantor cortou os pulsos em uma tentativa de suicídio.
Além de assumir as linhas de baixo, Renato Rocha também atuava como compositor da Legião Urbana. É dele as músicas "Mais do Mesmo", "Angra dos Reis" e "Daniel na Cova dos Leões".
O músico deixou o grupo em 1989, quando Russo o expulsou por causa de seus problemas com drogas. Ele, então, montou a banda Cartilage, com a qual chegou a gravar dois EPs. Em 1997, voltou à Legião para fazer participação na faixa "Uma Outra Estação".
Renato (segundo à esquerda) ficou com a Legião Urbana até 1989. Foto: Divulgação
Renato entrou para o grupo pouco antes das gravações do primeiro LP da banda. Foto: Divulgação
Ele teria problemas com drogas desde a adolescência. Foto: Divulgação
Ele ficou com a Legião Urbana até 1989. Foto: Divulgação
 
Após anos longe dos holofotes, Renato Rocha foi encontrado pelo programa "Domingo Espetacular", da Record, morando nas ruas do Rio de Janeiro. Ele teria perdido tudo ainda por causa de seu vício. De acordo com o irmão do Negrete, o filho de Renato Russo, Giuliano Manfredini, foi quem o resgatou da situação de rua. "Ele ficou por ali durante seis anos, mas Giuliano o levou para uma clínica de desintoxicação em Cotia [no interior de São Paulo]", escreveu o médico em um post.
Giuliano usou o Facebook para lamentar a morte de Renato Rocha. "Recebo a notícia com profunda tristeza e, paradoxalmente, com a leveza de ter podido estar ao seu lado nos últimos tempos, compreendendo-lhe e amparando o grande amigo de meu pai", publicou o produtor.
Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana, também usou as redes sociais para mostrar o seu pesar. "Fica a melhor lembrança, encontrou a paz. E, há tempos, muita saudade...", mandou, junto com uma foto da antiga formação da banda.

Saiba Dizer Não: 150 mil se reúnem em evento contra as drogas em SP

Organizado pela Força Jovem Universal, encontro levou música e arte à multidão
 
O evento reuniu jovens da capital paulista e também de todo o Estado de São Paulo neste sábado Eduardo Enomoto/R7
Cerca de 150 mil pessoas do Estado de São Paulo se reuniram no parque da Juventude, zona norte de São Paulo, no Saiba Dizer Não 2015, na tarde deste sábado (21).
Organizado pela FJU (Força Jovem Universal) da Igreja Universal do Reino de Deus, o evento de conscientização sobre uso de drogas, bullying, violência, suicídio, racismo e preconceito, teve apresentações de dança, teatro e bandas gospel.
De acordo com o bispo Marcello Brayner, organizador-geral do Saiba Dizer Não, o objetivo do evento é conscientizar a juventude de que é possível “saber dizer não para as drogas, ao bullying, a violência, ao preconceito, ao suicídio, ao racismo, e não se influenciar”.
— Prevenir é sempre melhor que remediar. O problema das drogas não depende apenas das autoridades ou da polícia, mas também da conscientização dos adolescentes. É possível curtir a vida com outras ferramentas, como o esporte, a música, as artes, ou seja, sem ter que fazer uso das drogas. A essência da vida é a liberdade.
Veja as fotos do Saiba Dizer Não 2015 que acontece neste sábado
Além das apresentações, jovens subiram ao palco e deram depoimentos sobre como conseguiram se livrar do uso das drogas. Um deles foi Rodrigo Rosa Santos, 35 anos. O encanador começou a usar cocaína aos 17 anos e “perdeu tudo” por causa do vício.
— Era empresário e tinha muitas lojas, mas perdi tudo por causa das drogas. Cheguei a vender a roupa do corpo para comprar pedra de crack, eu comia cocaína. Cheguei a morar na Cracolândia, perdi um casamento de 13 anos por causa do vício. Mas há um ano conheci o programa A Última Pedra da Igreja Universal e, desde então, a minha vida mudou. Já tinha ido em terapia, psicólogo e todos me diziam que o vício não tinha cura. Mas, hoje, sei que tem. Há um ano não uso mais drogas, estou curado.
Para o bispo Brayner, depoimentos como o de Santos são importantes, pois o “jovem fala na linguagem de jovem” e a mensagem é levada de forma espontânea e ajuda a conscientização.
O bispo responsável pelo programa A Última Pedra da Igreja Universal, Rogério Formigoni, também esteve presente no evento. Para ele, o Saiba Dizer Não ajuda a mostrar a juventude que o vício tem cura.
— Existe porta de entrada, mas também existe porta de saída para o vício. Quem entrou, vai ter como sair.
Próximos encontros
Segundo informações da FJU (Força Jovem Universal) mídia, o evento reuniu jovens da capital paulista e também de todo o Estado, como Campinas, Ribeirão Preto, Indaiatuba. Mais de mil pessoas participaram da organização e da apresentação do Saiba Dizer Não 2015, em São Paulo.
O Saiba Dizer Não acontecerá em todas as capitais do Brasil. O próximo encontro será em Brasília, no Distrito Federal, no sábado (28), no estádio Mané Garrincha. Já no dia 7 de março, o evento ocorre em Belo Horizonte, capital mineira, na Arena Independência. Em breve, também haverá o evento no Rio de Janeiro, mas a data e local ainda estão indefinidos.

Ela se livrou do crack e da cocaína

O duelo que os viciados travam com as drogas é intenso e difícil. Mas, ao contrário do que muitos pensam, ele não é impossível de ser vencido

Amanhã vai ser diferente. Essa é uma frase muito comum na vida de pessoas que enfrentam o problema dos vícios. O desejo de parar é real. A realidade, entretanto, extrapola qualquer vontade de acabar com a dependência. Falta controle sobre as próprias ações e sobra desespero.
O consumo de drogas no Brasil é alto. De acordo com o 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, divulgado pela Universidade Federal de São Paulo em 2012, o País é o primeiro mercado de crack do mundo. Outro estudo mais recente, realizado pela Fiocruz a pedido da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), mostrou que os usuários regulares de crack e formas similares de cocaína fumada (pasta-base, merla e oxi) totalizam 370 mil pessoas nas 26 capitais e no Distrito Federal. É um número maior do que a população total da cidade de Bauru (365 mil), em São Paulo. Essa quantidade alta totaliza 35% dos consumidores de drogas ilícitas.
É uma realidade difícil que Fabiola Pasinato, de 39 anos, conhece bem. Ela começou a fumar cigarros aos 14 anos e logo conheceu a maconha. Depois, experimentou benzina e álcool. Aos 18 anos, entrou na universidade e conheceu a cocaína. A vida já estava revirada e o vício instalado. Fabiola passou por clínicas de reabilitação, mas a cura não acontecia. Ouvia que estava com uma doença progressiva e incurável e também foi orientada a seguir os 12 Passos do Narcóticos Anônimos.
A teoria era bonita, mas, na prática, nada fazia sentido. Ao sair da primeira internação, Fabiola voltou para casa e experimentou o crack. Estipulava dias e horários após o trabalho para usar a droga. Acreditava que tinha controle da situação. Não achava que era viciada. Ela queria abandonar o vício, mas não conseguia. Foi preciso chegar ao fundo do poço para buscar uma solução real e efetiva. 
Cura possível
Foi na TV que Fabiola ouviu um homem dizer que tinha a solução para os vícios. Já não havia mais esperanças. Tinha medo de planejar o futuro, que via como incerto e duvidoso. Em abril de 2014, decidiu conhecer a reunião de Tratamento da Cura dos Vícios, comandada pelo mesmo homem que tinha visto na televisão, o bispo Rogério Formigoni. “Comecei a participar, mas ainda sentia vontade de usar a droga. Em junho do mesmo ano, fui com três pedras dentro da bolsa. Eu continuava com vontade de usar, mas não conseguia. Não conseguia mais manipular aquela droga. Entreguei as pedras.”
Ao todo, foram 20 anos usando drogas ilícitas. Desses, oito foram consumidos pelo uso do crack. “O bispo Formigoni falou que era da minha fraqueza que eu ia tirar a força para a cura. Esse tratamento inspira as pessoas a buscarem o poder que elas têm”, reforça Fabiola.
Rogério Formigoni, que é autor do livro A Última Pedra – Vícios Têm Cura, cujas vendas já ultrapassaram mais de 1 milhão de exemplares, explica que a internação não resolve. “A gente tem casos de pessoas que foram internadas e que estão há um ano sem usar drogas. Só que a vontade está dentro delas.
Na clínica, elas são sedadas e dão um monte de remédios para tentar tirar o desejo pela droga. Então, essas pessoas se tornam viciadas em anfetaminas, em comprimidos. A vontade continua e elas vão se matando aos poucos. É isso o que a gente tem visto.”
Fabiola conta que, antes de ir à Universal, não acreditava muito na cura. “Resolvi verificar pessoalmente. Naquele momento o vazio em minha alma, outrora ocupado pelo espírito do vício, estava sendo preenchido pelo Espírito Santo. Hoje, está claro para mim que os meus atos insanos cometidos por conta do vício foram perdoados e Deus me ofereceu uma segunda chance”, completa ela, agora curada em definitivo dos vícios.
A cura real e possível
No mês de junho entrei na Universal da Avenida João Dias, em São Paulo, com três pedras de crack na bolsa. Estava participando das reuniões de Tratamento para Cura dos Vícios desde abril. Ainda sentia vontade de usar a pedra, mas, desde o dia em que cheguei à Universal, a minha relação com as drogas mudou. Comecei a obter maior controle das minhas escolhas. Passei a enxergar o crack como de fato ele realmente é: uma substância muito nojenta e malcheirosa como o lixo.
Envergonhada, pedi para falar com o bispo Formigoni. Contei que ainda sentia vontade e que tinha tentado usar a pedra, mas não tinha conseguido. Disse que a fumaça preta começou a me fazer tossir muito, causando-me ânsia. Ele me ouviu. Fez uma oração e perguntou se eu tinha drogas comigo. Minha alma congelou. Entreguei as três pedras e me preparei para ouvir um belo sermão. Para minha surpresa o bispo disse: “Você é uma pessoa muito corajosa e forte. O que você fez é uma atitude muito difícil para um usuário. Você acaba de ser curada.”
A partir daquele momento, senti um alívio enorme e o peso que carregava nas costas há anos desapareceu. A minha visão ficou mais clara. A culpa e a vergonha imensurável que gritavam dentro do meu peito foram acalentadas. Sentia, após muitos anos, uma alegria sem tamanho.
Fabiola Pasinato