quinta-feira, 21 de maio de 2015


RICOS PORÉM ESCRAVOS DOS VÍCIOS


Mais da metade dos consumidores declarados de drogas pertencem à classe alta brasileira. Homem que ficou entre a vida e a morte conta o que fez para se livrar da dependência química.

Drogas: um caminho sem volta?

O vício também atinge a alta sociedade e trazer consequências fatais, mas engana-se quem acredita que esse mal não tem solução

                 

Uma vida de conforto e regalias. Além da possibilidade de estudar em boas escolas e do suporte financeiro para realizar todas as vontades e ambições. O que leva uma pessoa tão privilegiada a entrar para o perigoso mundo das drogas? 
O paranaense Rodrigo Mux-feldt Gularte, de 42 anos, tinha todos os recursos disponíveis para construir uma vida cômoda. Poderia viver no anonimato, mas ganhou as páginas dos noticiários de todo o mundo nas últimas semanas.
Usuário de drogas, Rodrigo havia sido internado em algumas ocasiões. A primeira delas ocorreu quando ele tinha 16 anos. O consumo foi além do uso e fez com que Rodrigo entrasse para o tráfico. Em 2004, foi preso em Jacarta, na Indonésia, após ser flagrado com seis quilos de cocaína escondidos em pranchas de surfe. Um ano depois, foi condenado à morte. As investigações apontaram que ele foi usado como “mula”, ou seja, transportou a droga em troca de dinheiro.
Mas, na Indonésia, o crime de tráfico de drogas é considerado gravíssimo e o criminoso paga com a própria vida.
A jornada para o país asiático foi uma viagem sem volta. Neste ano, no dia 28 de abril, Rodrigo foi fuzilado, ao lado de outros sete traficantes. O paranaense foi o segundo brasileiro a passar pelo “corredor da morte” na Indonésia. Em janeiro deste ano, o carioca Marco Archer, de 53 anos, foi o primeiro brasileiro a ser executado pelas leis de um país estrangeiro.
Archer foi preso em 2003, quando tentou entrar na cidade de Jacarta com 13,4 quilos de cocaína escondidos em equipamentos de asa-delta. Na ocasião, ele fugiu, mas foi encontrado duas semanas depois na própria Indonésia.
Caso a operação não fosse descoberta pela polícia estrangeira, Marco receberia aproximadamente R$ 3 milhões pelo transporte da droga. Um ano após a prisão, ele também foi condenado à pena de morte. Rodrigo e Marco perderam a vida e todas as chances de se libertar das amarras das drogas. As consequências não foram calculadas e o final foi fatal.
O consumo de drogas não tem a ver com classe social. O vício não escolhe cor, idade ou renda. Prova disso é o resultado da pesquisa feita pela Fundação Getulio Vargas (FGV). O estudo concluiu que mais da metade dos consumidores declarados de drogas pertencem à classe alta brasileira. Intitulado “O Estado da Juventude: Drogas Prisões e Acidentes”, o levantamento mostrou que 62% dos consumidores de drogas são jovens, têm cartão de crédito e estudam em instituições privadas de ensino. Ao todo, 182 mil brasileiros foram ouvidos. A pesquisa fez referência apenas ao uso de maconha, lança-perfume e cocaína.
Falsa ilusão
A estrutura financeira não foi suficiente para livrar Henrique Alberto Almirates Neto do contato com as drogas. A família, de classe alta, não economizou esforços para oferecer o melhor ao rapaz.
Profissional de televisão e rádio, Henrique já trabalhou como diretor comercial, diretor artístico e produtor executivo de diversas emissoras. A carreira bem-sucedida e a vida estabilizada também não o impediram de experimentar cocaína. A partir do primeiro contato com a droga, a rotina dele não seria mais a mesma.
“Naquele momento, eu tive uma sensação agradável, uma falsa ilusão. Senti que era forte, corajoso, me senti o dono do poder. Sempre fui muito mulherengo. Eu usava a cocaína para me anestesiar, acalmar.
Usava também para me excitar, para ter relações com as mulheres”, conta. À medida que Henrique crescia profissionalmente, o uso da droga se intensificava. “Quanto mais importante eu ficava, quanto mais dinheiro eu ganhava, mais fácil era o acesso à droga”, afirma.
Cocaína
O alto consumo do estimulante usado por Henrique ainda assusta. O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) garante que quase 4% da população adulta já experimentou variações de cocaína na vida. O índice foi de 3% em adolescentes. O Brasil representa, em números absolutos, o segundo maior mercado de cocaína do mundo. Ao todo, 6 milhões de brasileiros já experimentaram essa droga em algum momento da vida.
Henrique conta que para manter consumo levava uma vida dupla. Como era preciso viver de aparência, tinha o círculo de amizades do vício e o círculo de contatos sociais. “Ninguém sabia que eu tinha o vício, porque eu não podia correr o risco de perder o meu emprego”, relata. Ainda assim, nessa vida dupla, ele queria sempre o melhor. “O melhor relógio, o melhor carro, o melhor terno, a melhor mulher. E com a droga é a mesma coisa. Você quer a mais pura, a mais cara, a que vai mexer mais com a sua cabeça. E onde você vai encontrar isso? Na alta sociedade.”
Rogério Formigoni, autor do livro A Última Pedra: Vícios têm Cura, explica que existem pessoas que usam drogas todos os dias e afirmam que isso é algo “social”. “São pessoas públicas, empresários, que cheiram dois, três pinos de cocaína por dia e dizem que é para ficar mais acordado, mais eufórico. Eles têm dinheiro para manter o vício e a família não sabe. Na cabeça deles, é um vício social, mas eles não conseguem ficar sem a substância. Vivem sob o domínio daquela droga e precisam de cura.” Formigoni, que foi usuário de drogas durante cinco anos, conhece bem a realidade vivida por Henrique e tantas outras pessoas que enfrentam a batalha contra o uso de substâncias ilegais.
Henrique começou a perceber que havia se tornado um escravo da cocaína. “Eu não estava mais dando conta da minha agenda e comecei a ter problemas profissionais. Estava perdendo dinheiro, tudo atravancava a minha vida.” Para completar, passou por algumas situações para entender que a própria vida corria riscos. “Primeiro, eu capotei um carro. Depois, fui atropelado por um ônibus. Mas o pior de todos foi o acidente de moto. Foi gravíssimo, fui parar na UTI. Ali eu percebi que precisava sair daquela vida.”
Apesar de todo o sofrimento, os familiares não deixaram de apoiá-lo. Toda a família sofre quando um dos integrantes enfrenta problemas com o vício. De acordo com o Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos (Lenad Família), o dependente afeta a habilidade de trabalhar ou estudar de 58% dos parentes. Muitos (33%) têm medo que o seu familiar viciado beba ou se drogue até morrer.
Por sugestão do pai, Henrique decidiu participar do “Tratamento para a Cura dos Vícios”, realizado todos os domingos, às 15h e às 18h, na Avenida João Dias, em Santo Amaro (SP). Foi quando ele entendeu que existia solução para o problema que enfrentava. “A Universal abriu as portas para mim, me ofereceu tratamento. E não me cobrou nada por isso”, completa. Hoje, ele está livre da cocaína e a sua trajetória serve de exemplo para milhares de pessoas.
Rogério Formigoni lembra que o mundo das drogas é um caminho tortuoso, que ilude e destrói. “Quando eu experimentei, me disseram que era uma viagem boa, mas ninguém me disse que era uma viagem sem volta. A droga leva você a dois caminhos: a cadeia ou o cemitério. Mas existe solução e o tratamento está aí para provar que há um terceiro caminho, que é o da cura.”
 
Fonte: FOLHA UNIVERSAL

 

segunda-feira, 18 de maio de 2015


Cinco vezes mais forte que outras drogas, o crack leva à morte em 5 anos


Por Carolina Justi/Estagiária    


O crack é extraído através de um processo químico da folha de coca
O crack é extraído da folha de coda através de um processo químico.
Uma droga que vem destruindo famílias é cinco vezes mais potente que outras drogas e mais barata, o crack tem sido cada vez mais utilizado, não somente por pessoas de baixo poder aquisitivo, mas também pelos cidadãos da considerada classe média alta. A droga que surgiu em meados dos anos 1980 como forma de popularizar a cocaína pelo baixo custo, atualmente vem fazendo mais usuários.
Segundo o antropólogo, Sebastião Vianey, o entorpecente movimenta milhões de dólares no submundo do crime.
“Quem está usando e está dependente das droga está doente e necessita de tratamento. Esta é uma questão de saúde pública. Por outro lado há de se considerar também de um modo mais realista, o fato de que quando estamos falando de drogas, nós estamos falando de um mercado capitalista. Muitas pessoas se enriquecem com esse ‘mercado’ que movimenta milhões de dólares”, explicou o antropólogo.
O crack tem origem nos países andinos. No Brasil tem como principal base a cocaína, droga extraída por meio de processos químicos das folhas de coca, planta originária da América do Sul.
De acordo com o professor aposentado da Universidade Federal de Uberlândia, Roberto Cardoso, o crack funciona para os dependentes como um anestésico da consciência, ou seja, uma forma de as pessoas se refugiarem dos problemas adquiridos no meio de convívio social, seja ele familiar, amigável, amoroso, profissional ou pessoal.
Na forma de crack a droga já fez mais de meio milhão de dependentes no Brasil, com índice de morte em torno de 30% em uma média de cinco anos. Após ser tragado, ele chega ao cérebro em 15 segundos, e o efeito pode durar até 15 minutos.

quinta-feira, 14 de maio de 2015


PROGRAMA "PÕE NA RODA" ENTREVISTA O PRESIDENTE DA CÂMARA DE LIMEIRAVEREADOR NILTON SANTOS

(Confira link abaixo)
 https://www.youtube.com/watch?v=6FVASwoZbz4

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Novas drogas causam alucinações, canibalismo e podem levar à morte

Vendidas livremente na internet, substâncias podem gerar epidemia semelhante à do crack
 
                                    
             
Marcella Franco, do R7*
Substância faz de usuários 'zumbis' Thinkstock
Debaixo de um viaduto, em plena luz do dia, um homem se aproxima de um morador de rua idoso que cochila depois do almoço. Com movimentos rápidos, morde, mastiga e devora os olhos, bochecha, nariz e boca da vítima. Para evitar que a presa se defenda, o rapaz esmurra seu peito e lhe quebra uma costela.
O que parece ser o ataque de um canibal em um filme aconteceu de verdade em Miami (EUA), em 2012, e foi fruto da reação à ingestão do Cloud Nine, uma das drogas que vêm se popularizando no Brasil e preocupando médicos e familiares de jovens que ainda constituem a parcela mais expressiva de usuários em todo o mundo.
Os nomes dos entorpecentes da moda lembram itens do catálogo de uma loja esotérica — sais de banho, incenso do mal, pandora, spice, citron. E, embora divirjam nas formulações e ação alucinógena, em um aspecto eles são muito parecidos: os efeitos devastadores no organismo.
O comportamento canibal de Rudy Eugene, por exemplo, que mastigou vivo Ronal Poppo nos Estados Unidos, é típico das catinonas sintéticas, derivados da anfetamina produzidos junto com uma planta chamada khat, nativa da África oriental.
Quem usa este tipo de droga — que tem apresentação em forma de cristais (daí os tais sais de banho que batizam a maioria dos modelos vendidos no Brasil) ou pó similar à cocaína — sente, em um primeiro momento, um aumento considerável na libido e na sociabilidade. No entanto, poucos minutos depois, já é invadido por um quadro de agressividade incontrolável, acompanhado de psicose grave que gera alucinações severas, como no caso do ataque americano.
Para a psiquiatra Fernanda de Paula Ramos, especialista em dependência química, a psicose é o traço mais perigoso da droga, que é vendida na internet em sites estrangeiros por preços que variam entre R$ 250 a R$ 650 o saquinho com quatro gramas.
— As catinonas também são vendidas como sais de banho, fertilizantes ou repelentes de inseto, numa tentativa de mostrar que são inofensivas e que têm outra finalidade. As mais comuns são a mefredona, a metilona e o MDPV, todas proibidas no Brasil desde 2012. Podem ser cheiradas, usadas via oral ou injetadas, e não são detectáveis na urina. Por isso, os pacientes chegam à emergência e nós, médicos, não temos como ter ideia de que usaram isso, a menos que eles nos digam.
Vendidos como parentes industrializados da maconha, os canabinoides sintéticos constituem outra categoria também capaz de arrasar corpo e mente dos usuários. Causam, entre outros sintomas, quadros de infarto, AVC, danos renais, crises de pânico, psicose e até mesmo a morte.
— Temos relatos de colegas que trabalham em pronto-socorro que dão conta de que houve um aumento de 30% nos atendimentos em relação ao que acontecia apenas com a maconha. Trata-se de uma designer drug, que tem como única finalidade “dar barato”, ser uma droga de abuso. Também é vendida na internet, e traz no rótulo a informação de que não é própria para consumo humano, a fim de burlar fiscalização.
Ficou famoso no mundo todo o caso de Connor Reid Eckhardt, um jovem americano de 19 anos que morreu em junho de 2014 depois de dar uma única tragada em um cigarro feito de maconha sintética. Nos Estados Unidos, a droga é vendida livremente como incenso em lojas de conveniência, e custa cerca de R$ 40.
Ao chegar já em coma ao serviço de emergência, Eckhardt confundiu os médicos, que não conseguiram fechar um diagnóstico baseados apenas nos sintomas. A solução do caso veio porque um pacote de spice — nome mais comum da droga — foi encontrado no bolso do rapaz. Por causa do inchaço no cérebro causado pelo uso da substância, o jovem teve a morte cerebral decretada ainda no mesmo dia.
De acordo com Fernanda, 91,3% dos usuários de canabinoides sintéticos também fazem uso da maconha. A psiquiatra conta que os primeiros dados sobre a existência do spice são de 2004, e que até 2014 já havia o registro de novos 134 canabinoides sintéticos — destes, 101 criados só no ano passado.
— Os fabricantes mudam um átomo, uma única molécula da composição, e aí, com isso, a substância não consta mais na lista de proibidas. Há histórias de carregamentos da droga apreendidos, mas em que nada pôde ser feito.
Embora a causa da morte do estudante Victor Hugo dos Santos tenha sido afogamento, a sequência dos fatos que levaram ao óbito no famoso caso — acontecido na raia olímpica da USP (Universidade de São Paulo) em 20 de setembro do ano passado — teve como estopim o consumo de outra droga famosa entre os jovens, o NBOMe.
Alucinógeno potente, descrito muitas vezes como um LSD sintético, o NBOMe gera desde uma leve confusão até mesmo a morte. De acordo com o psiquiatra Leonardo Paim, uma estimativa global recente feita via internet apontou que 11% dos frequentadores de casas noturnas conheciam a droga.
— Ele causa formigamento primeiro na língua e depois no corpo inteiro, tremores, aumento da atividade psicomotora, sintomas alucinatórios clássicos dos psicodélicos, alucinação auditiva e visual e distorção do tempo.
Embora os números de usuários ainda sejam vistos como pouco expressivos, Fernanda reforça um dado preocupante, que pode apontar o rumo do consumo das drogas da moda no Brasil e no mundo.
— As pessoas podem não lembrar, mas, quando o crack surgiu, apenas 1% da população fazia uso da substância. Hoje, como se sabe, a situação é bem diferente.
*A jornalista viajou a Porto Alegre (RS) a convite do World Congress on Brain, Behavior and Emotions.