terça-feira, 14 de abril de 2015




Más notícias da Cracolândia

O Estado de S.Paulo
14 Abril 2015 | 02h 04

A Cracolândia confirma o dito pessimista de que o ruim sempre pode piorar. Os vários programas lançados nos últimos anos para dar assistência aos dependentes que se concentram na região central da cidade que leva esse nome e induzi-los a deixar as drogas, por um lado, e para combater o tráfico que ali corre solto, por outro, produziram resultados decepcionantes, muito distantes das promessas das autoridades tanto municipais como estaduais. Más notícias não faltam, sendo a última delas a chegada ali de uma nova droga - a heroína, tão devastadora como o crack.


Segundo reportagens da TV Globo e do jornal Folha de S.Paulo, a Polícia Civil fez há pouco a primeira apreensão dessa droga - 88 gramas - na Cracolândia, trazida por dois traficantes africanos vindos da Tanzânia, que foram presos. A quantidade é pequena, mas especialistas alertam que uma pedra de heroína menor do que um grão de arroz, misturada com crack, basta para causar dependência. Além disso, a polícia acredita que esse não é um caso isolado, mas parte de uma tentativa em curso dos traficantes para difundir o consumo dessa droga na região.

Segundo o delegado Alberto Pereira Matheus Júnior, do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), para popularizar essa droga no Brasil, traficantes nigerianos e de outros países africanos vendem heroína a preço bem mais baixo do que o praticado na Europa e nos Estados Unidos. Eles levam cocaína para a Europa, passando pelo Brasil, e trazem para cá heroína do Paquistão, do Afeganistão e uma parte da Colômbia. O delegado levou o caso ao conhecimento da Polícia Federal, do Ministério Público e da Prefeitura e sugere uma ação conjunta deles com o governo do Estado para tentar evitar que a droga se espalhe.

Outra má notícia é que a favela formada na Cracolândia com pequenas barracas na Alameda Cleveland e Rua Helvétia está se expandindo, o que é claro sintoma do agravamento da situação. Não por acaso, a secretária municipal de Assistência Social, Luciana Temer, usou palavras fortes para descrever o que está acontecendo ali: "Houve um descontrole do território, a situação degringolou. Isso não significa descontrole do Braços Abertos" (programa por ela dirigido, que presta assistência aos dependentes, oferece-lhes quartos em hotéis e lhes paga R$ 15 por dia por serviço de limpeza de ruas). Segundo ela, houve redução do efetivo da Polícia Militar (PM) na Cracolândia. Essa seria, portanto, uma das razões do descontrole.

Em primeiro lugar, mesmo que o descontrole não atinja o Braços Abertos, como ela pretende, a situação desse polêmico programa está longe de ser boa. Prova disso é o estado dos hotéis que abrigam os dependentes de crack. Suas condições de higiene são precárias e eles foram depenados pelos dependentes que roubaram tudo que podia ser vendido para comprar droga - de chuveiros a batentes de portas, passando por fiação elétrica, roupa de cama e vasos sanitários.

Quanto ao efetivo policial presente na região, a Secretaria da Segurança Pública assegura que ela é "uma das mais bem policiadas do Estado", que no ano passado foram presas 378 pessoas e que a PM apoia a ação dos agentes sociais e de saúde.

Nesse caso, nenhuma das partes deveria jogar a culpa sobre a outra. Se a Cracolândia é uma das áreas mais bem policiadas do Estado, como explicar que o tráfico de drogas ali corre solto, dia e noite, à vista de todos? Mas dizer que a situação escapou ao controle, degringolou, por culpa da polícia é uma simplificação que deforma a realidade, não corresponde aos fatos, embora convenha aos interesses da Prefeitura.

Todos estão a dever uma ação mais efetiva na Cracolândia nos dois lados do problema - o da assistência social e médica aos dependentes para levá-los a se tratar e o da ação policial de combate ao tráfico. As deficiências e limitações do Braços Abertos e a desenvoltura dos traficantes, que já ensaiam a introdução ali da heroína, são bons exemplos disso. E indicam a urgência de repensar a fundo a questão.

 

Unidos Contra o Crack mais uma vitória


 O trabalho de prevenção às Drogas é uma tarefa árdua , mas quando o resultado é alcançado e a pessoa é liberta do vicio , toda a luta , toda oração e entrega valem a pena!

Esse é Carlos Alexandre F. dos Anjos , foi viciado dos 08 aos 29 anos e hoje com 36 anos auxilia outras pessoas a se libertarem do vicio das drogas!
Carlos é um exemplo , pois através de um sofrimento que durou 21 anos de dependência , hoje ele é engajado no trabalho de ...combate às drogas.
Esse é mais um caso de Perseverança e Superação, onde o  Grupo Unidos Contra o Crack , agradece a todos pelas Lutas diárias.
Nosso Amigo Carlos se coloca a disposição das pessoas que necessitam de ajuda ou de uma palavra amiga. Seu endereço é Rua Benjamin Mesquita ,311 ,Bairro Boa Esperança.

Na foto, Pastor Nilton Santos e Carlos 

quarta-feira, 8 de abril de 2015





Charles toca, mas não leva a vida na flauta

Por Carlos
31/03/15 
FONTE BLOG FOLHA/UOL
FONTE MÚSICA E LETRAS              
 
 

Charles da Flauta, à esquerda quando adolescente junto dos irmãos tocando na rua Barão de Itapetininga (Foto: Arquivo Pessoal)
Charles da Flauta, à esquerda quando adolescente junto dos irmãos tocando na rua Barão de Itapetininga (Foto: Arquivo Pessoal)
O flautista Charles Pereira Gonçalves, 41, o Charles da Flauta, famoso por tocar nas ruas do centro de São Paulo, está na cidade onde morou, viveu e tocou. O músico, que teve uma vida difícil e bastante tumultuada, está na capital paulista para realizar apenas uma apresentação, hoje, dia 31, no hotel Century.  Ex-viciado em drogas (crack e cocaína), além de ter respondido na justiça por uma tentativa de homicídio que o fez “puxar” vários anos de “cana”, o artista promete “muito som”, na apresentação, afirmando que será “paulada”.
Em entrevista ao Música em Letras, concedida ontem de manhã, em seu quarto do hotel em que fará o show, o flautista discorreu sobre sua vida errante, o que o fez deixá-la e o que quer fazer dela daqui para frente, em Londrina, no Paraná, onde mora.
Leia a seguir trechos da entrevista.
GÊNESE
Charles nasceu no dia 13 de agosto de 1973, em um hospital da Vila Prudente, na região Sudeste da cidade de São Paulo. Não lembra o nome do hospital e tampouco pensa se foi o dia de nascimento que lhe trouxe tanto infortúnio. Entretanto, os teve e não foram poucos.
Junto do irmão Alex, 40, cavaquinista e atual integrante da banda que acompanha os Demônios da Garoa, além do irmão gêmeo Reinaldo (atualmente internado em uma clínica de reabilitação), o flautista começou cedo na lida.
Na juventude, o pai dos músicos, José Gonçalves, 72, teve uma banda de rock (iê-iê-iê) e a mãe ciumenta de não deixar as meninas chegarem perto, ficava sempre junto dele no palco. “Aí na primeira transa deles nasceu (sic) eu e meu irmão. Ele teve que casar com ela ainda barriguda, senão ele ia morrer. Naquele tempo se matava por isso”, disse.
Quando o pai saía para trabalhar como vendedor de marionetes nas ruas da cidade, alguns de seus instrumentos eram “fuçados” pelos filhos. “Tinha medo do meu pai. Quando ele saía, brigava com meus irmãos para ficar com a flauta”, disse o músico que aos 10 anos, “de ouvido”, já tocava “Piston de Gafieira”, de Billy Blanco (1924-2011). Um dia, o pai esqueceu os documentos e flagrou os filhos brigando pelo “canudo”. “Aí ele me ensinou a tocar flauta e meus irmão a tocarem cavaquinho e pandeiro”, falou.
A mãe, Ilda Pereira Gonçalves, morreu de pneumonia com 33 anos. Segundo Charles, “a situação ficou preta e meu pai mandava nós três vendermos marionetes, sozinhos, no centro da cidade”, disse o artista que saía da Vila Carmosina, bairro dos distritos de Itaquera e Parque do Carmo, na zona Leste, e “passavam por baixo das roletas dos ônibus” para chegarem ao centro.
“Aí, olha o que eu fazia. Vendíamos uma marionete, eu entrava numa loja de música comprava uma flautinha doce, botava uma caixa de sapato aberta e tocava juntando a maior galera pra assistir”, disse o artista que arrecadava muito mais dinheiro tocando que vendendo as marionetes. Os irmãos “passavam o pano”, recolhendo o dinheiro dos transeuntes, enquanto Charles esmerilhava em músicas como “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo (1923-1980); “Tico-Tico No Fubá”, de Zequinha de Abreu (1880-1935) e “Apanhei-te Cavaquinho”, de Ernesto Nazareth (1863-1934), entre outras.
Escondidos do pai, que pensava que os filhos apenas vendiam as marionetes, tomaram as ruas por palcos. O melhor dia era sábado que “dava, se fosse hoje, mais de R$100”, disse. Barão de Itapetininga, 24 de Maio, Dom José de Barros, XV de Novembro, rua Direita e a praça da República recebiam os garotos por volta das nove da manhã, que “atacavam” às 10h. “Igual a trabalhador, tocávamos até a hora do almoço, parávamos, comíamos e à tarde pegávamos até umas quatro horas. Depois, juntávamos o dinheiro e íamos para o fliperama jogar”, contou o músico que chegava em casa de noite e mandava: “Pô, pai, a rua tava (sic) fraca, vendemos uma marionete só”.
O pai, desconfiado, um dia foi “na bota” dos filhos e novamente os flagrou. Desta vez, cercados de um monte de gente maravilhada com a música e pagando rios de dinheiro por isso. “Ele ficou escondido e viu o ‘vuco-vuco’ de gente, nós tocando e a caixa de sapato cheia de dinheiro. Seguiu a gente até o fliperama, onde cada um comprava de uma vez 30 fichas, e quando estávamos na terceira partida ele nos pegou pela orelha”, contou rindo e explicando que, depois da raspança, o pai percebeu que o “business” com a música era muito mais rentável que o das marionetes. Assim, o progenitor montou o grupo Terceira Geração do Choro, com os filhos, tocando violão de sete cordas.
A flauta doce foi trocada por uma transversal quando Charles tinha 12 anos. “Ganhei de uma diretora da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Quem ‘puxou o bonde’ para essa diretora dar o dinheiro para comprar a flauta foi um amigo do meu pai. Ele nos mostrou para ela e disse: ‘Eles são pobres, ajuda eles (sic) a comprar uma flauta’. Ela deu e compramos minha primeira flauta.”
Na ocasião ainda não tinham casa própria: “Sempre morávamos de quebrada, de aluguel”, contou o artista acrescentando que, de tantas que foram suas casas, não se lembra exatamente onde morou. “Quando minha mãe morreu, morávamos em Guaianazes, zona Leste da cidade”, disse o músico que “pegava o ônibus para o Parque Dom Pedro, descia e subia a ladeira da General Carneiro, e tocávamos primeiro na XV de Novembro, para depois irmos para a Barão de Itapetininga”.
A grana fluía lotando a caixa de sapatos e com ela “vigaristas e um monte de mentirosos apareciam, de mala e terno, dizendo que iam levar a gente para o Silvio Santos”. Segundo o músico, numa dessas vezes apareceu um sujeito muito bem vestido, aproximou-se da roda e mandou: “Meu, pode parar! Vou contratar vocês”. “O cara deu um cheque para meu pai, valendo hoje uns três mil reais, e mandou que parássemos na hora e fôssemos embora, pois estávamos contratados por ele, que o próximo lugar onde tocaríamos seria no programa do Silvio Santos. Ficaríamos milionários, coisa e tal”, disse o flautista completando que no dia seguinte o pai quase foi preso ao tentar receber o cheque, sem fundos, dado pelo estelionatário bem vestido.
Em outra ocasião, um mendigo chegou perto da caixa de sapatos com o dinheiro e disse enquanto a família tocava: “Este dinheiro pertence a Deus e Deus sou eu”. “O cara falou isto e começou a pegar o dinheiro e pôr no bolso. A população linchou ele. Até o dinheiro que tinha no bolso, que era dele, ficou para nós”, contou rindo.
Outra situação lembrada pelo músico envolveu “os maloqueiros, que cheiravam cola, no chafariz da praça da Sé. O moleque chegou fumando e pediu para tocar ‘Brasileirinho’. Como estava tocando outra música, disse para ele esperar. Ele pegou o cigarro e queimou o pescoço do meu irmão que estava tocando cavaquinho. Dei uma flautada nele e junto com meus irmãos fomos para cima dele. Ele voltou com mais de cinquenta moleques. Nos enrolamos no meio das pernas do meu pai que sentava o violão neles. Esta foi triste, veio até a polícia para apartar”.
FAMA E EUROPA
Com 14 anos, gravou seu primeiro disco, “Pinguinho de Gente”, mostrando o que fazia já há quatro anos nas ruas da capital. Gravaram ao lado de feras, entre elas, o arranjador, violonista, baixista e compositor Edson José Alves; o cavaquinista Lucio França, que já morreu; o ritmista Jorginho Cebion; Luizinho “sete cordas”, no violão, e o atual percussionista da banda Mantiqueira, Fred Prince.
Gravaram um clip para o Fantástico, da rede Globo, tocando à noite, no Pátio do Colégio, no centro da capital; participaram de nove programas do Faustão, abocanharam um prêmio Sharp e Charles foi para Europa onde arrematou mais condecorações. “No elevador do hotel, na Holanda, tinha gente de tudo que era lugar do mundo. Não sabia se eles estavam nos xingando e xinguei todo mundo. Coisa de criança”, contou rindo.
Charles da Flauta e Altamiro Carrilho (Foto: Arquivo Pessoal)
Charles da Flauta e Altamiro Carrilho (Foto: Arquivo Pessoal)
O mestre Altamiro Carrilho (1924-2012) apadrinhou Charles, que quando ia para o Rio de Janeiro hospedava-se em sua casa. Qual a maior lição que aprendeu com ele? “Muitas. Entre elas, como fazer as ‘gambiarras’. Passei a andar sempre com chiclete, esparadrapo, um papelzinho e elástico no bolso”, falou explicando que “o papel, chiclete e esparadrapo são para tirar o jogo do pé da flauta, quando o encaixe fica folgado. O elástico, para dar maior pressão nas chaves, tapando vazamentos das sapatilhas”. O mestre também tentou ensiná-lo a fazer staccato, trinado e ligaduras, mas o discípulo já sabia. “Você já sabe tudo. Quem te ensinou?”, perguntou Carrilho. “Foi o senhor. Aprendi escutando seus discos”, respondeu Charles, que escutou à exaustão “Clássicos em Choro” e “Choros Imortais”, discos excelentes de Carrilho. Contudo, o discípulo tocava muita música de maneira errada, com notas e articulações diferentes. “Tipo parece, mas não é. Aí ele me corrigiu.”
Altamiro comentou ainda com o jovem como compôs a música “Aeroporto do Galeão”, de cabeça, sem escrever e utilizando o sinal sonoro com quatro notas que precedia a locução com informações de embarque e desembarque nos alto-falantes do aeroporto Tom Jobim, durante uma viagem do Rio de Janeiro para São Paulo.
Depois, Charles estudou e tocou com flautistas considerados faixas pretas, como Toninho Carrasqueira; seu pai, João Dias Carrasqueira (1908-2000) e Carlos Poyares (1928-2004). Paulo Moura (1932-2010), Dominguinhos (1941-2013), Beth Carvalho, Grupo Redenção, o bandolinista Danilo Brito, o violonista Alessandro Penezzi, Quinteto em Branco e Preto, Demônios da Garoa e o grupo Fundo de Quintal foram apenas alguns nomes com quem Charles teve prazer em juntar seu talento.
DROGAS
Até 19 anos, o flautista não bebia, não fumava e não cheirava. Só tocava. Teve inúmeras flautas, por vezes ganhas na rua e doadas por pessoas generosas que se condoíam com o péssimo estado dos instrumentos utilizados pelo garoto. Um dos melhores luthiers deste instrumento em São Paulo é Luiz Carlos Tudrey, que de sua oficina, no bairro da Lapa, consertou “sem nunca cobrar” os instrumentos do músico.
Contudo, o pai de Charles tinha dinheiro, vindo do disco. Comprou um apartamento, na COHAB Educandário, reformou e mobiliou.Na ocasião, deixaram de tocar na rua e faziam muitos shows pelo Brasil. Ficavam 15 dias sem aparecer em casa e faltavam muito na escola. “Repeti a sétima série três vezes”, disse o músico que nunca concluiu seus estudos.
Porém música estudavam bastante, mas passavam muito tempo “de bobeira”. Foi aí que Charles experimentou o primeiro baseado (cigarro de maconha) de muitos que vieram a seguir, antes de enveredar pela cocaína e pela “pedra” (crack). “Meus irmãos fumavam e eu não. Um dia falaram que eu tinha ficado famoso e não ‘colava mais com eles’ e eu acabei experimentando. Na primeira vez, não deu nada. Na segunda, deu uma ‘brisa’. Depois fiquei apaixonado. Como tinha dinheiro dava para os moleques que compravam de 50 gramas para cima e fumava o mês inteiro. Meu irmão que toca com os Demônios da Garoa foi o primeiro a parar. Há muito tempo que ele é ‘caretaço’, mas eu e o meu irmão gêmeo mandamos ver”, contou o músico que depois de dois anos usando maconha, passou a comprar “papéis” de cocaína. O pai descobriu que os filhos estavam “desandando” e mudou-se do local. O filhos gêmeos negaram-se a acompanhá-lo e ficaram à deriva, dormindo nos barracos e ruelas da favela próxima à COHAB. “A gente só pensava em droga”, disse afirmando que consumia, mas nunca vendeu.
Charles foi internado, pela primeira vez de muitas, na clínica Recanto Maria Tereza, em Cotia. Saiu, teve inúmeras recaídas, mas a coisa piorou quando começou a queimar “pedra”. “Meu irmão descolou uma putinha que fumava pedra e ela colocou a gente no lance”, falou afirmando que daí para frente sua vida virou um inferno. A família e os amigos “viraram as costas” e Charles passou a tocar em semáforos da cidade para amealhar dinheiro para sustentar o vício durante uns dois anos.
AGRESSÃO
Em uma manhã, próximo ao lado do Arouche, Charles acordou na rua e foi a uma padaria onde “arrumou” um pão e um pingado. “Vieram três malucos da General Osório e começaram a me zoar. Enfiaram um cachimbo de pedra na minha boca e eu falei que não queria, que estava me alimentando. Aí, caiu o pão e o café no chão. Com fome, fiquei revoltado, né meu? Peguei a metade de uma tesoura que estava no chão do lado de um outro ‘nóia’ que estava dormindo ali e fui atrás dos caras. Cheguei perto deles e falei: Oh, seu maldito. Você não vai devolver meu pão e meu café que você derrubou? Aí um deles veio babando para cima de mim. Dei duas tesouradas nele que abriu tudo. Ele ficou tonto e caiu. Os outros fugiram pedindo socorro. No resumo, dei oito furadas no cara”, contou o músico que foi detido em flagrante por uma viatura do GARRA (Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos). Foi levado algemado, sem resistir à prisão, na mesma viatura com a vítima que foi encaminhada para a Santa Casa e Charles, para o terceiro distrito. “Fiquei dois anos ‘guardado’ até ir para julgamento. Fui condenado a nove anos e tanto por isso”, falou.
Do distrito, Charles foi para o presídio Dacar, depois para a penitenciária de Valparaíso. Nunca foi “esculhambado” e para ganhar remissão de pena, trabalhou costurando bolas de futebol utilizadas no campeonato brasileiro com marcas da Nike e da Penalty: “Trabalhava três dias e ganhava um”, explicou. Aprendeu a cortar cabelo e foi transferido para o setor da barbearia. “Depois ganhei minha colônia, o semiaberto.” Em outubro de 2002, saiu da cadeia na famosa “saidinha”. Músicos do grupo Redenção o indicaram para os grupos Fundo de Quintal, Quinteto Branco e Preto e os Demônios da Garoa. Fez seu primeiro show com o grupo Fundo de Quintal, no Olímpia, casa de espetáculos do bairro da Lapa. Foi um sucesso. Daí para frente, começou a tocar com eles quase todos os dias. “Esqueci de voltar para a colônia e fiquei quatro meses tocando com os caras, foragido, sem ninguém saber”, contou afirmando que neste tempo não usou nenhum tipo de droga. “Pô, tocando e ganhando a maior grana meu objetivo era outro. O negócio é que eu não queria mais saber de cadeia.” Tudo passava desapercebido até que um segurança do grupo, um policial que fazia escolta, desconfiado do linguajar de Charles e de sua maneira de se comportar puxou a ficha do músico e constatou que ele era foragido. “Ele chegou nos empresários do grupo e disse que eu estava com problema com a justiça e podia queimar a imagem do grupo”, disse o flautista que tocava em estádios lotados com mais de 10 mil pessoas. “Não tinha tempo nem de gastar o dinheiro, de tanto que eu viajava com eles e trabalhava. Juntei R$ 9 mil, comprei carro e móveis.” No dia em que deveria ir para Santos, tocar em uma virada de ano, foi comunicado pelo empresário, na hora do embarque, de que não poderia ir. “Ele falou que eu era um excelente músico, que somava com eles, que era pontual nos compromissos; ‘mas vai resolver seu problema com a justiça, senão você vai queimar a imagem do grupo’”, disse o músico, afirmando que deste momento em diante seu mundo desabou e entrou novamente nas drogas. “Fiquei uns três dias chorando em depressão e me afundei na droga de novo.”
De volta para rua, em meio a outros viciados da cracolândia, foi “recolhido” durante uma batida policial para pagar o tempo que ainda devia à justiça. De um CDP (Centro de Detenção Provisória) foi transferido para a penitenciária de Paraguaçu Paulista. Conseguiu “ganhar” a condicional depois de quatro anos e a “quebrou” em 2005. “Todo mês tinha que assinar. Depois de um dois anos, teve um dia em que não fui. Fui recapturado em 2009, logo depois de participar do programa Altas Horas, e tive que pagar tudo de novo”, disse o músico que “zerou sua cadeia” apenas em 2011, na penitenciária de Guarulhos, “tirando”, no total, sete anos e oito meses de detenção.
O músico passou por três rebeliões e alguns perrengues em blitz da polícia, mas teve sempre boa conduta. “Nunca fui para o castigo. Dentro da prisão comecei a frequentar a igreja evangélica, mas fui me encontrar com Deus há um ano, em Londrina, e minha vida mudou totalmente”, falou o músico que deixou a cadeia “com uma mão na frente e outra atrás”.
Um amigo da prisão que conheceu quando dava aulas de música para os detentos o procurou em um dos semáforos onde tocava e ofereceu uma oportunidade em Londrina. Charles resistiu a princípio, mas depois, em fevereiro de 2014, cedeu e se mudou para lá.
“Falei: quer saber, meu, alguém vai ter que ‘puxar o bonde’. Fui e este amigo me pagou um mês de pensão e me apresentou nos lugares de música da cidade. Passou um mês, já fui morar em um hotel me sustentando com a grana da música”. Nas horas de fissura pelas drogas, “passei a me apoiar em Deus e a ir na igreja pedir para Ele me ajudar. Conheci uma mulher em Londrina, Cristina, operadora de caixa, que é mãe da minha filha que vai nascer agora e se chamar Isabela. Levei-a para a igreja também e Deus começou a abrir as portas para nós”, falou.
Hoje, Charles mora em uma casa com Cristina e os pais dela. “Eles moram nos fundos e nós na frente. Fui superbem acolhido”, disse o flautista que há oito meses tem uma oficina de choro para 40 pessoas de idades variadas, que funciona todos os finais de semana, das 9h às 11h. Na hora seguinte, todos tocam juntos o que prenderam. Além disso, Charles dá aulas pela internet.

segunda-feira, 30 de março de 2015



Morre no hospital bebê de um ano que engoliu 12 pedras de crack deixadas pela mãe



Por Denise Mello e Antonio Nascimento

Morreu na noite desta quinta-feira (26), o menino Fabio Gabriel Caetano Amorin, de um ano e quatro meses, após passar 10 dias internado na UTI por ter engolidos pedras de crack que estavam na casa em que vivia, em Paranaguá, litoral do Paraná. O pequeno Fabio lutava pela vida no Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, desde o dia 16 de março, mas não resistiu. A mãe, de 21 anos, está presa junto com o padrasto, de 29 anos.
O casal foi preso após a Polícia Militar receber denúncias anônimas de que o filho da mulher teria engolido pedras de crack, guardadas em casa pelo casal. O bebê recebeu atendimento médico e foi internado no Hospital Regional de Paranaguá. A mulher já tem passagens pela polícia por receptação.
No hospital, os policiais teriam ouvido os familiares comentarem que a criança engoliu 12 pedras de crack. A mãe, ao ser questionada sobre o fato pela equipe, teria dito que procurava pelo filho e o encontrou em um beco, na frente da residência, já com o comportamento agitado.
A mãe e o padrasto permanecem presos. O corpo do bebê foi encaminhado para o Instituto Médico Legal.